Escambos Estéticos/Fragmentos

Fragmentos da última publicação do grupo intitulada "O Azar é todo nosso. Um gesto reflexivo da Cia dos Inventivos"

APRESENTAÇÃO
“....uma atriz da Cia. do Tijolo contou a história de uma cirurgia pela qual passara seu pai recentemente. Se me lembro bem, é uma operação cardíaca que remove o coração do paciente por algum tempo e mantém o corpo vivo graças a uma máquina que faz o sangue continuar circulando mesmo sem seu principal órgão. Uma vida sem coração. Depois de devidamente operado, consertado, reorganizado, o músculo é colocado de volta ali naquele corpo do qual saíra. Quando escutei isso me pareceu a imagem mesmo da ideia de Escambos Estéticos e, no limite, uma imagem do tipo de coletividade que orienta o grupo. Vocês escolheram começar a criação abrindo-se a outros grupos, pensadores, ativistas e artistas, e que, a partir desta operação estética, se instaurassem as bases de sua nova criação. É como se os Inventivos mantivessem seus corpos vivos, com seu sangue circulando, mas alhures, enquanto, por um momento, retiram seus próprios corações (e cabeças, estômagos, mãos, pés...) e os oferecem para serem operados, provocados, estimulados, reorganizados...  Depois, colocam-no de volta para seguir com os trabalhos de montagem. É um procedimento arriscado, mas de muita coragem e também generosidade.”

Fala de Paulo Bio na Publicação “O Azar é todo nosso! Um gesto reflexivo da Cia dos Inventivos”, colaborador do grupo desde 2010.



PREFÁCIO

Escambos viscerais para a criação de uma Trilogia Inventiva

Rei/ Eu sei que sou/ Sempre fui/ Sempre serei/ Oba
De um continente por se descobrir
Já/ Alguns sinais/ Estão aí/ Sempre a brotar/ Do ar
De um território que está por explodir/ Sim
Mas é preciso ser sutil/ Pois justo na terra de ninguém/ Sucumbe um velho paraíso
Sim, bem em cima do barril/ Exato na zona de fronteira/ Eu improviso o Brasil.
Rei/ Sei que sou/ Sempre fui/ Sempre serei/ Oba
De um continente por se descobrir
Já/ Alguns sinais/ Estão aí/ Sempre a brotar/ Do ar
De um território que está por explodir
E/ Minha cabeça voa assim/ Acima de todas as montanhas e abismos/
Que há no país
Mas algo chama a atenção/ Ninguém jamais canta duas vezes uma mesma canção.

Antônio Cícero, Wally Salomão e João Bosco (Zona de fronteira)
O viver, para os seres vivos, querendo ou não, se caracteriza, também, pelas parcerias que se estabelecem ao longo de uma vida inteira. Mais ou menos duradouras, em seus caminhares, as relações entre os seres humanos se estabelecem por intermédio das mais variadas e díspares redes e ligações. Por sermos conscientes quanto à nossa condição de sujeitos que, sob as mais variadas circunstâncias, podem arbitrar sobre si, e parafraseando um filósofo importante, temos liberdade para nos aprisionarmos a quem quer que seja. Desse modo, de “ficares” rápidos ao estabelecimento de laços mais duradouros, relações são construídas pela caminhada que compreende o tempo de finitude de uma vida. Fazemos e (des)fazemos parcerias infinitamente. Algumas parcerias duram toda uma vida; outras – talvez a maioria – o tempo necessário para o atendimento de uma necessidade, de um desejo, de uma contingência. Também as parcerias de um grupo de teatro têm durações diversas.
Os Inventivos mantêm uma parceria já com perto de 10 anos, cujo início ocorre na Escola Livre de Teatro (Santo André – São Paulo). Sem dúvida para um grupo teatral esse período é um tempo significativo, principalmente, pelo fato de sua existência, do ponto de vista econômico, depender de aprovação de projetos apresentados às instâncias públicas. No Brasil não há uma proposta de política cultural; portanto, para produzir arte é preciso estar permanentemente na corda bamba, vencendo, também, as angústias e incertezas das verbas sazonais... A cidade de São Paulo, decorrente de processo de luta de seus artistas-trabalhadores, tem um programa municipal de fomento, que é disputado por mais de trezentos coletivos. A cada ano, de acordo com essa lei, apenas trinta grupos são contemplados, então, mesmo havendo uma lei municipal que garante a sobrevivência do sujeito histórico chamado teatro de grupo, o processo de disputa é delirante.
Articulando o primeiro e segundo parágrafos, o tempo de parceira de coletivos teatrais, na cidade de São Paulo, mas não exclusivamente nela, depende da aprovação de projetos permanentemente (re)criados. Os Inventivos tem o tempo de estrada e existência decorrente, sobretudo, da aprovação de projetos apresentados, inicialmente ao Programa de Valorização de Iniciativas Culturais, da Secretaria Municipal de Cultura (VAI), ao Programa de Ação Cultural da Secretaria de estado da Cultura (ProAC) e ao Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. Graças ao Fomento e à pertinência dos projetos e de suas montagens, os Inventivos conseguiram, em seis anos de pesquisa e de trabalho, apresentar uma linda trilogia, construída coletivamente, com grande número de parceiros e colaboradores. Inserem-se nessa trilogia – adaptada, a partir de processos improvisacionais, do importantíssimo livro de João Ubaldo Ribeiro, Viva o povo brasileiro – e pela ordem: Canteiro (2009), Bandido é quem anda em bando (2011) e Azar do Valdemar (2014).
Organizando e promovendo sempre novas parcerias, os arautos do grupo, em caráter permanente e intérpretes criadores são: Aysha Nascimento, Flávio Rodrigues e Marcos di Ferreira. A direção ou o problemeiter (como se designa em alemão o diretor de espetáculos épicos, que divide as tarefas e problematiza os processos de criação), de toda a trilogia, é Edgar Castro. Cada espetáculo foi criado em determinado momento e, em seu conjunto, formam uma Trilogia Inventiva. Em tese, a trilogia, do ponto de vista de tipologia (ou categoria de personagens) apresenta pontos de vista de “comedores de restos” (povo), os fazedores de festins e “tomadores de vampiros” (a classe dominante) e os comedores de oferendas (os orixás). Para realização da trilogia muitas parcerias foram estabelecidas; entretanto, para a concretização objetiva dos espetáculos, mesmo sem a presença física, o grande criador da obra inicial ou seminal é João Ubaldo Ribeiro. Em determinado momento, os integrantes do grupo tentaram aproximar-se de seu autor, mas não foi possível o encontro. Falecido durante a trajetória e construção da trilogia, João Ubaldo, possivelmente, ficaria feliz com o resultado: do mesmo modo como em sua criação, a Trilogia Inventiva traz a teimosa gente brasileira, na condição de protagonistas da cena.
Em Canteiro, trabalhadores, em sua hora de almoço, relembram trajetórias, entre real e invenção de seus parentes; em Bandido é quem anda em bando, personagens-lúmpen, que vagam pela cidade, tentam entender um assassinato ocorrido na noite anterior. Em meio ao entendimento das razões do assassinato, personagens beneméritas e “ongueiras” apresentam seus discursos apologéticos das supostas melhorias por elas praticadas; e em Azar do Valdemar, a partir de expedientes do teatro de variedades, vidas ceifadas  – de modo óbvio e figurado – apresentam, metateatralmente, um retrato dantesco do Brasil.
De certo modo, toda a imensa e significativa obra de João Ubaldo Ribeiro, compreendendo contos, romances, roteiros de filmes, matérias jornalísticas, tem em seus epicentros protagônicos as gentes alojadas e refugiadas em tantos recôncavos. Personagens asseme[a]lhadas a gente, que pela força das circunstâncias – impostas pelas injustiças somadas – vagam ao nosso lado nas ruas da cidade e têm, taticamente, de se bandear e, nessa condição, andar em bandos: em carroças, com cachorros, carregando todo tipo de tralha “catada” de lixos. Gente esfarrapada, em processos de desterro, que tenta se somar, em ocasiões específicas. Gente abatida, mas que persevera e conta com a força de sua imaginação, tantas vezes contaminadas por ideologia perversa. Gente que luta permanentemente, disputando todo tipo de sobra. Gente que sonha e que transforma os transtornos em devaneio, em mundos onde reinam os “realismos fantásticos”. Gente que espera pela hora certa, pela hora do bote e da deglutição antropofágica.
Apesar de o tratamento estético ser diverso nos espetáculos que compõem a trilogia, os Inventivos escolheram as ruas como locais para apresentação de suas obras. Como características “comuns” e fundantes das obras podem ser destacados a criação e o trânsito com os expedientes do teatro épico. Nessa forma teatral anti-ilusionista e desinteressada das questões intersubjetivas, a obra espetacular metateatraliza tanto o processo de criação como o de apresentação; estrutura-se a partir de temas e assuntos da história social; divide a narrativa em episódios independentes e articulados; mistura os gêneros teatrais e estilos interpretativos; instaura-se como um experimento estético-social a partir de uma partitura aberta estimulando e contando com a participação do público.
Assim como toda mãe, esconde e impede a si mesma a verdade quanto ao gostar mais de uma de suas crias, difícil e complexo optar e apontar uma das três obras da Trilogia Inventiva como a melhor. Não sei se as mães têm razão em sempre disfarçar e tergiversar quanto ao seu filho dileto. Invariavelmente, esse filho ou filha existe, mas o sentimento se conserva como um segredo-parceiro levado durante a finitude do viver. De qualquer forma, uma obra apresenta um gosto de “quero ver a outra”... e assim tem se “assucedido”.
A Trilogia Inventiva é como um cometa: o que nela se vê é algo que decorre daquilo que não está mais de todo lá... é a travessia que se pode fazer em parceria. Invenção do que não está no céu, mas cravada , brutalmente, no real do chão: feito ilha em toda a nossa volta.
Parafraseando Cazuza: “[...] o nosso amor a gente inventa!”


Alexandre Mate – professor do Instituto de Artes da Unesp, pesquisador de teatro, integrante dos Núcleos Nacional e Paulistano de Pesquisadores de Teatro de Rua, é também editor das revistas Rebento – Revista de Artes do Espetáculo e Arte e Resistência nas Ruas.



“(...) descobri que Valdemar é um canto coletivo, um bom encontro, um acorde resistente que pretende apontar para a possibilidade de uma criação conjunta, de um refrão repetido pelo público para acarinhar esse artista tantas vezes sufocado que somos nós”. (Rodrigo Mercadante)


“Esse encontro com Valdemar é isso: essa necessidade de contar a nossa história, a história de um povo. Pra sobreviver, ele cria. Pra fugir da fome, de não ter uma casa, ele cria”. (Cleydson Catarina)


Reflexões sobre coletividade


O teatro rigorosamente popular é feito coletivamente e ao ser apresentado coleta de diferentes formas as contribuições de quem assiste. É esta porosidade que caracteriza este grupo. [...] Os escambos caracterizam práticas sociais de povos comunais, que viviam em comuna. A educação comunal não tem um professor ou uma professora, todo mundo é detentor de saberes que vão sendo socializados em processo.”
(Alexandre Mate)



Por um teatro terapêutico

Edgar Castro – Eu acho que a gente tá sedento dessa experiência que suaviza, que nos coloque em contato com este tecido mais sutil e delicado, que é a vida. Que desembruteça a gente. Porque esta cultura do consumo, nos torna pantagruélicos, devorando, devorando... É como se a gente fosse impelido a desenvolver uma compulsão por um amortecimento, e nada mais distante da possibilidade de perceber a delicadeza do tecido da vida do que o amortecimento. Quanto mais amortecido, menos sensível para perceber a sutileza, a delicadeza da vida. E a arte é esta possibilidade de provocar uma sensação de delicadeza no olhar, nas relações, no trato com as diferenças, porque é a antítese disso que a gente vê aí do: “consuma, consuma, consuma!” – você começa a achar que vai encontrar algum repouso, alguma satisfação no objeto, que o objeto vai te trazer aquilo. E o objeto te ilude, faz você achar que vai passar o desodorante Axe e você vai andar a pé na rua e a mulherada vai ficar louca... Uma coisa que interessa no Valdemar é a gente terminar frente a este corpo despedaçado, violentado. A gente pretende com este espetáculo gerar uma experiência coletiva, no sentido de resgatar ou vitalizar isso que ainda nos resta de humanidade. O Vitor Pordeus, que é ator e médico, num dos encontros dos Escambos Estéticos, falou sobre uma coisa que fez muita diferença pra nós, e que é fundamental, sobre a dimensão terapêutica da obra. Ele disse que a gente precisa retomar os ritos coletivos, rituais coletivos. Existe uma necessidade do indivíduo de participar desses rituais, mas se os rituais coletivos começam a ser suprimidos, o indivíduo vai em busca de outras coisas e aí o linchamento e outras violências grupais inacreditáveis passam a ser uma alternativa. Então se os rituais coletivos que nos conectem de uma maneira produtiva e a favor da vida começam a ser suprimidos do cotidiano, rituais contra a vida começam a aparecer, as gangues de linchamento... Isso regeu muitas questões em relação à feitura do Valdemar. E o desejo do espetáculo é promover um ritual que é uma conexão emocional em torno de um corpo esquartejado. A gente sabe que dentro de um discurso mais oficial, você associar o adjetivo terapêutico à arte parece algo menor, uma coisa apenas de cunho assistencial. Eu acho isso uma coisa muito equivocada. Justamente porque nós nos constituímos enquanto humanos através desses rituais coletivos. A gente acha lindo os agricultores cultivando e cantando juntos: isso é um ritual coletivo, isso fortalece a coletividade, o grupo humano. Este desejo de colocar mais humanidade nas relações. Um agir sobre esta barbárie que sempre parece estar por um fio de eclodir com toda a força.


13 menos 9
(Livre-elaboração a partir das falas de Raul Zito e Everaldo Santos Oliveira na 1º mesa dos escambos estéticos organizada pela Cia dos Inventivos dia 12 de agosto de 2013)

No subúrbio de Salvador, minha turma naquela escola de paredes apodrecidas pela umidade era pareada em 13 homens e 13 mulheres. De onde eu vim não havia tempo para ser menino, desde os primeiros passos pelo chão sujo éramos homens e mulheres sujeitos à própria sorte – e nas margens do mundo a sorte é pouca. José Aparecido, o Cido, era o chefe tácito do grupo, mais preto que todos os 13 pretos, era forte e daquela beleza de guerreiro africano, andava na frente e em silêncio, não tinha medo nenhum da vida nem da rua – era o seu defeito: o Cido morreu numa fogueira de pneu atribuída ao tráfico, mas armada pela polícia... ninguém sabe direito porquê. O pai do Cido era o mestre Bento, capoeirista da Sé, de quando capoeira era coisa proibida, andava sempre de cabeça levantada, com a mesma calça branca, sempre branca, porque na roda ele nunca caía. Quando viu o filho misturado no preto daquela fumaça de pneu, as pernas perderam a força, caiu sentado no chão imundo, a calça alva ficou negra da fuligem e das cinzas do seu filho preto. Todos nós fomos lá ver o fogo. O Ilsinho ficou ali parado, mesmo depois de todos irem embora. Era o melhor amigo do Cido. Depois desse dia não falava com ninguém direito. Uns meses depois morreu com uma navalha enterrada na barriga numa briga na rua. Bebeu uma garrafa toda e saiu gritando e xingando quem passava, tacando pedra em janela. “Alastrou... merecido” - ouvi dizerem na rua. Quando vi na TV por esses dias aqueles protestos com o pessoal quebrando tudo que é banco, loja, eu achei graça, lembrei do Ilson... Como se ele tivesse começado isso, muito antes, sozinho.
Um tempo depois eu saí da escola, eu e mais a maioria, uns tinham que trabalhar; outros não viam nada ali naquele quadro morto que nem o giz mais pegava; e mais alguns tentavam fugir daquela tristeza repetida. Resolvi vir pra São Paulo, de carona num caminhão que chacoalhava tanto que quando parava me dava tontura de pisar no chão imóvel. Logo que cheguei soube notícia de lá da Bahia, que o Zeca um dia voltou pra casa arrastado pela polícia porque tinha tentado roubar o rádio de um carro, e o pai do Zeca, que era só o marido da mãe dele e fora capitão do exército – “se não fosse pelo senhor, capitão, o moleque não voltava pra casa” – bateu tanto que o Zeca foi dormir meio tonto, acordou de manhã, levantou da cama e caiu. O pessoal do bairro botou fogo na casa do capitão. Fiquei triste, o Zeca era um amigo meu de verdade e o melhor ponta-esquerda que eu já vi jogar. A gente ganhava todo campeonato do bairro por causa do Zeca que recebia na beirada, entrava de diagonal, puxava pro pé direito e pá! Todo mundo sabia que ele fazia assim e ninguém conseguia marcar. Ele queria ir na peneira do Bahia, sempre falava, mas tinha que dar 200 reais pra alguém colocar o nome dele na lista... Talvez ele tenha roubado o rádio pra pagar a peneira, sei lá... A verdade é que ele não era ladrão como era ponta-esquerda. Já o Téo Minhoca era o melhor pra roubar carteira de gringo. Soube que encontraram ele boiando no mar, de manhã, todo furado de tiro. Andrezinho morreu de meningite em uma semana. Passava mal, ia no posto, falavam que era resfriado, sinusite, virose e ele dizendo que tava com dor no pescoço... Qualquer um sabe que dor pra baixar o pescoço é meningite. Morreu. O Zézão passou mal depois de comer um feijão podre que deram pra ele na obra que ele ajudava, vomitou até a alma e morreu sem mais nada por dentro. Parece uma guerra, iam caindo um por um.
Bem depois, quando eu voltei a primeira vez pra Salvador, com 17 anos, encontrei o Antônio Capeta meio por acaso, largado na rua, pedindo qualquer resto pra mastigar, difícil de chegar perto, aquele cheiro de urina, cachaça e pobreza. Ele olhou com raiva da minha pena e disse que tava ali porque queria, que foi pra rua porque queria viver, “porque a rua tem luz”, que o mundo era “invés concentrado” e que pedir na rua era muito menos humilhante do que trabalhar igual um escravo e receber um nada de salário de fome, disse que a rua parece só lugar de passagem, mas pra quem mora ali é uma selva cheia de vida. Não acreditei nisso que ele disse. Uma semana depois soube que ele tava internado num corredor qualquer de hospital público, não sei se apanhou ou caiu de uma ponte, não entendi, fui lá visitar, ofereci ajuda: “não tenho muito, mas se precisa de qualquer coisa, somos irmãos”, ele olhou com um olho fundo: “na rua todo mundo morre”. Durou só mais dois dias. Foi enterrado como indigente, sem nome. Meu avô me dizia sempre que o pobre só tem mesmo o seu nome... A verdade é que não tem nem isso. No dia que voltei pra São Paulo soube do Tião, que era um dos poucos que tinha ficado na escola, que ia fazer faculdade e sei lá mais o que... Era o mais inteligente mesmo, falava de racismo, de desigualdade, de opressão do povo preto e pobre... A gente ouvia e dava risada. Parece que ele tava chegando em casa meio tarde e a polícia levou ele pra “averiguação”, depois ele sumiu. O pessoal do bairro virou carro, fechou rua, a mãe dele gritava desesperada... Não deu em nada. Dos 13 homens da escola morreram 8, antes de chegar nos 18. Em São Paulo eu ficava com isso na cabeça o tempo todo. Sentia que só sobrevivia. Fiquei revoltado com tudo. Olhava pra riqueza toda da cidade e pensava como eles podiam conviver com a miséria apodrecendo nos seus pés. “Tu é burro, moleque. A barbárie é o combustível do progresso”, o velho já torto de bêbado disse pra mim numa noite fria de São Paulo, “a gente morre, apanha, é virado do avesso, sugado até se tornar pior que nada, pra que esse país de merda possa progredir”, e ria. O velho era uma espécie de sábio estragado das ruas da cidade. Depois tentou passar a mão embaixo da saia de uma moça que entrou no bar e levou um soco do dono... saiu cambaleando, com sangue na cara, mas ainda perguntou meu nome. Fiquei em silêncio, só olhando aquela massa estranha em forma de velho se arrastar pro meio da rua.

Meu nome mesmo é Everaldo. Mas em SP deixei a barba crescer e o pessoal me chamava de Raulzito, depois só Zito... Quando uma vez fui parado pela polícia perguntaram meu nome e eu disse meio automático: Waldemar... Não sei por quê. Deu sorte, me deixaram ir sem fazer nenhuma maldade. Um dia eu vi um cara colando umas fotos num muro enorme, depois fazia uns desenhos em volta com spray, fiquei lá olhando... Quando ele tava terminando eu disse “Ou! Escreve Waldemar aí pra mim ... é com W, hein?”. E ele escreveu, embaixo do nome dele. Fiquei feliz, passava ali sempre. Era a primeira vez que eu me via fora de mim. Hoje de manhã eu saí pra fazer meus bicos no centro, tava distraído, o ônibus me jogou uns 30 metros. Caí no chão já quase apagando. Não sentia nada, mas comecei a lembrar de um por um dos meninos lá de Salvador. Como se eu e eles fôssemos uma coisa só.

Texto de Paulo Bio, colaborador da próxima publicação do grupo.

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