terça-feira, 20 de maio de 2014


Com poesia Cia. dos Inventivos conta trajetória dos azarados 


                                   | Texto por Rudinei Borges | Foto por Christiane Forcinito |


O azarado não tem outra medicina que não a esperança.
(William Shakespeare)
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Azar é espécie de má sorte que se põe na sina de alguns homens. Força de origem indecifrável que se move para além das forças do ser humano. Jogo próximo do acaso.  Acontece por acontecer sem que ninguém ao certo tenha poder de interferir. Força estranha e daninha que despedaça os que por ela são preteridos. Talvez seja este o significado da palavra azar no imaginário de boa parte das pessoas, em particular quando associado ao universo supersticioso. Todavia, a composição quase indissolúvel deste imaginário é posta em questão na nova montagem cênica da Cia. dos Inventivos em São Paulo. A peça “Azar do Valdemar”, com direção de Edgar Castro e dramaturgismo de Jé Oliveira, alicerça-se na procura por compreender o que torna desventurada uma população numerosa: os miseráveis, os açoitados na noite escura das ruas e cadeias, os tidos como indigentes, os desaparecidos, as mães desesperadas, os artistas da fome, os pobres, os favelados, os subempregados em fundos de loja, os azarados. Surge como obra atual, pois dialoga de modo profícuo com o Brasil dos linchamentos, dos “marginais” amarrados em postes, da (des)comemoração dos 50 anos do Golpe Militar de 1964, da Copa do mundo, da Comissão da Verdade e de protestos inúmeros. Em um diálogo de feitura poética ardorosa a montagem põe às claras as manipulações várias que tecem o azar dos homens. Neste sentido, a peça mostra que não se tratando de sina o azar é uma arma que fere e mata, mas pode ser vencido quando alguma esperança se instaura no coração das pessoas.
 A procura por fundamentar um discurso de temática social e, por assim dizer, político e humanista edifica uma narrativa de travessias que vai e vem no despedaçar do corpo do herói: Valdemar, espécie de alegoria da gente brasileira. Menos afeito às viagens de Macunaíma, personagem do romance de Mário de Andrade (1893-1945), o herói maltrapilho dos Inventivos em muito é mais parecido com José do poema de Carlos de Drummond de Andrade (1902-1987) e com Carlitos, o vagabundo interpretado por Charles Chaplin (1889-1977).  Aliás, é o próprio Drummond que afirma em seu poema “Canto ao homem do povo – Charles Chaplin” que em tudo a nossa gente se parece com a gente de Carlitos, “vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem/nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,/e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor/como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua”. Em partes a peça estabelece alguma procura pela personificação de Carlitos nos passos do excelente trabalho do ator Marcos di Ferreira. O caminhar desengonçado, os sapatos que se movem como se quisessem sapatear, o jogo com as escadas e o olhar perdido remetem ao vagabundo do cinema mudo. Numa construção que encontra a ingenuidade e a coragem de nossa gente di Ferreira propõe em cena a desfiguração do falso herói tendo como norte o romance “Viva o povo brasileiro” de João Ubaldo Ribeiro.O resultado é a configuração de um anti-herói que tem nuances do caipira de Mazaropi e da pouca esperteza de Macabéa, personagem de “A hora da estrela”, novela de Clarice Lispector.
Valdemar é deglutido aos poucos por um sistema de barbárie, muito bem apresentado pelo ator Flávio Rodrigues, que leva gente da gente, nas palavras do teólogo Leonardo Boff, ao linchamento da inocente Fabiane Maria de Jesus em Guarujá no litoral paulista. Confundida com uma sequestradora de crianças para efeito de magia, foi literalmente estraçalhada e linchada por uma turba de indignados. Ou ao desaparecimento do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, em 2013, após ter sido detido por policiais militares e conduzido da porta de sua casa em direção a sede da Unidade de Polícia Pacificadora da Favela da Rocinha na cidade do Rio de Janeiro. Este último caso aparece quase como um norte da peça. O corpo de Amarildo, ou Valdemar, é feito em pedaços. O anti-herói ao longo de sua própria via-crúcis perde as mãos, as pernas, o estômago e o coração – perde o sentido amplo e esperançoso de ser.
Resta após o desaparecimento/morte de Valdemar apenas o silêncio sustenido do grito da mulher interpretada de modo primoroso por Aysha Nascimento. O trabalho da atriz é de uma presença-resposta fortemente visceral que a mulher posta em cena parece não caber no corpo de Aysha, interpretação de uma completude e ardor que coaduna com a sua significativa participação em “Movimento nº1 – O silêncio de Depois”, peça corajosa do Coletivo Negro. A mulher interpretada por Aysha contrapõe qualquer cordialidade, personifica a força do protesto, a dor das palavras do povo diante da perda, mas lança anseios de esperança.
É possível notar logo no início da montagem proeminências de denúncias das vozes que incitam a barbárie. Caixas de som espalhadas pelo carro onde a peça é encenada repetem colagens de um misto de frase e música, algo que vem do hip hop. Falas de jornalistas se misturam a falas de políticos, tudo ali no aglomerado poético da chegada da trupe que procura recriar a trajetória de um anti-herói brasileiro. No alto do carro microfones, instrumentos musicais e uma notícia: Valdemar queria ser um cantor popular. Os três atores mais o músico Adilson Fernandes injetam encantaria e alguma graça à peleja a ser narrada. Movem-se para dentro e fora do carro e levam consigo o público. É notória no espetáculo a presença da música cantada e gravada, espécie de liga entre os trajetos da peça. 
Também é notória a criação esmerada do figurino, trabalho de Cleydson Catarina que traz fluidez à encenação e aos personagens, elucida o alento lúdico do espetáculo. Parece-me que Cleydson partiu de referenciais da cultura popular aliando-se a elementos mais urbanos. Alguma luminosidade do tom carnavalesco noturno ganha vida junto aos tecidos de chita ou algodão cru estendidos em varais com desenhos de parte do corpo de Valdemar, aos botões coloridos, ao detalhe das cartolas e rendas, chapéus e perucas que são postos no anti-herói. Tudo isto é tomado de boniteza singular quando somado à iluminação do carro composta por lâmpadas de várias cores e à maquiagem que realça as sobrancelhas, redimensiona os olhos dos artistas e põe no rosto de Valdemar o desenho de dois pequenos corações como se não quisesse deixar o público esquecer que aquele homem, mesmo desvalido, desvela canduras.
Todo o espetáculo é impelido de completude poética e singeleza sagaz que vai do texto à encenação numa confluência arrojada que move para o encantamento. “Azar do Valdemar” é um dos mais proeminentes espetáculos de rua em cartaz atualmente na cidade de São Paulo.
  
Rudinei Borges – Poeta, dramaturgo e ficcionista. Autor dos livros “Chão de terra batida” (poesia), “Dentro é lugar longe” (dramaturgia) e “Teatro no ônibus” (pesquisa). Formou-se em Filosofia. Ator e diretor do Núcleo Macabéa. Editor da Alzira Re(vista). Nasceu em Itaituba, Pará.

Link da página Revista Alzira com a matéria : http://alzirarevista.wordpress.com/2014/05/20/com-poesia-a-cia-os-inventivos-conta-a-trajetoria-dos-azarados/

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