terça-feira, 15 de novembro de 2011

Crítica de Kiko Rieser sobre o espetáculo "Canteiro" durante 2ª Mostra Olho da Rua - 11 a 13 de Fevereiro de 2011 - Santos/SP

edição nº01/julho 2011 / 2ªMostra Olho da Rua

Uma mostra que evidencia muito

Kiko Rieser

Mostras de teatro, em geral, mais do que permitir que diversos espetáculos se tornem acessíveis a determinado público (e, costumeiramente, muitos trabalhos vêm de outros estados e, às vezes, até de outros países), permitem que se trace um panorama de determinado segmento ou linguagem, pois uma boa curadoria agrupa trabalhos que têm entre si alguma relação formal ou temática. A 2ª Mostra de Teatro Olho da Rua, organizada pela Trupe Olho da Rua, vem evidenciar as similaridades entre os grupos, que têm em comum não só elementos de composição da cena, mas também modo de produção e assuntos abordados. Talvez tamanha semelhança entre as dez montagens apresentadas responda a uma pergunta feita durante um dos debates da mostra: teatro de rua é linguagem? As interpretações arquetípicas, épicas e de gestos grandes para competir com a prolixidade visual da rua; o uso intenso da música executada ao vivo; a alusão ou mesmo vivificação de mitos e lendas populares; o humor; a interação com o público; todos estes elementos estão presentes na totalidade dos espetáculos apresentados. Em quase todos, dramaturgia colaborativa e temas explicitamente políticos, parodiando ou radiografando a macroestrutura social.

CRÍTICA DO ESPETACULO "CANTEIRO"

O primeiro espetáculo apresentado na mostra, Canteiro, da Cia dos Inventivos (de São Paulo), já apresenta o caráter fortemente político como pedra fundamental que pressupõe o direcionamento a um público pertencente a uma classe social historicamente explorada. Primeira parte de uma trilogia livremente inspirada na obra Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, a dramaturgia colaborativa com finalização de Daniela Rosa contempla a fatia do livro dedicada aos “comedores de restos” (as outras duas, abarcadas nos futuros espetáculos da trilogia, são os “comedores de oferendas” – deuses – e os “vampiros” – exploradores da mão-de-obra alheia). O texto é formado basicamente por quatro histórias que não se interseccionam, mas fazem parte do mesmo campo ficcional, pois são compartilhadas por quatro operários de construção que, durante o almoço, se vêem fartos de comer sempre a mesma marmita e então se lançam a pergunta: quem escolhe o que come?
Ao contar uns aos outros lendas populares abrangendo o tema, eles se intrometem na narrativa alheia, chegando mesmo a mudar o final como lhes convém. Passam a “bola” a outros narradores, delegam-se personagens, param para cantar quando precisam descontrair e mantêm o tempo todo o caráter de jogo, acentuado pela direção de Edgar Castro. Não se sentem presos à reconstituição fiel dos fatos, pois, mesmo inconscientemente, acreditam no seu poder de fazerem eles mesmos – o povo – a História, e de absorvê-la da melhor forma que lhes cabe, corrigindo em alguma medida uma falha apontada por uma personagem da peça: “herói do povo não tem nome em avenida, nem estátua”. Portanto, o espetáculo mostra, àqueles que acreditam que fazer a História é privilégio dos poderosos, que todos podem mudar o curso do que já está instituído. Deste modo, os personagens da peça permitem-se uma exaltação popular quando invertem os heróis, como no caso (também contado pelos operários) de Nêgo Leléu, capoeirista negro que vinga a morte da mãe biológica de sua filha de criação (que finalmente tinha podido escolher o que comer, quando aprendeu a pescar), assassinada covardemente por brancos. Entretanto, não há simplismos nessa dramaturgia, e logo em seguida é colocada em questão a noção de justiça pelas próprias mãos. Como as resoluções de problemas complexos são construídas a longo prazo, apenas no fim da quarta e última história se vislumbra, em uma canção, uma noção plausível de justiça para os exploradores: pegar ônibus lotado às 5h, pôr filho na escola pública, ganhar um salário mínimo, ficar na fila do SUS, etc. Não coincidentemente, são soluções similares a um projeto de lei (obviamente, nunca aprovado) do senador brasiliense Cristovam Buarque – que obrigaria os políticos a matricularem todos seus filhos em escola pública – e parecem ser a única saída possível (e justa) para o universo retratado. Mais do que punição, trata-se de igualdade de oportunidades. Um horizonte possível, numa peça que exalta o povo, mas não ilude ninguém, e acaba sem nenhum pobre escolhendo o que comer, tal e qual nossa realidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário