quarta-feira, 14 de setembro de 2011

São José dos Campos - FESTIVALE/2011 - crítica por Alexandre Mate

CANTEIRO: UMA OBRA DE TEATRALIDADE INFINDA CRIADA EM BANDO
Por Alexandre Mate

Nas chamadas histórias do teatro, as experiências que ganham estatuto documental são aquelas que correspondem a certo tipo de teatro, antenado e interessante aos detentores do poder da vez. De fato, não há uma história do teatro, o que existe documentado – seja majoritariamente com relação à dramaturgia, concernente à encenação, a movimentos estéticos etc – restringe-se a uma diminuta parte das práticas teatrais. Pouquíssima coisa existe sobre teatro popular, mas quase nada acerca de teatro de rua. Acerca de teatro épico-popular de rua, essa história ainda engatinha, mas não por ausência de obras, que têm aumentado, felizmente, dia-a-dia.
Teatro de rua, que sempre existiu, tem vocação popular, e vem sendo praticado por gente barrada “nos bailes” desde sempre. O que motivou certo tipo de artista, desde a Antiguidade clássica grega, a buscar os espaços públicos, seguramente, foi sua expulsão dos espaços oficiais. Os poderosos costumam não gostar de gente de faz não leva as coisas a serio, que faz chacota dos ricos, que apresenta seus próprios pontos de vista acerca dos acontecimentos oficiais.
Sete de Setembro transformou-se em data oficial da História do Brasil. Nesse dia, e desde Sete de Setembro de 1822, o Brasil independeu-se de Portugal, ou seja, do primeiro país invasor... Verdade que outras independências esperam ou precisam ainda ser feitas, mas como se dizia por meio de ditado popular: Calma que o Brasil é nosso! Nosso... exatamente de quem?
No teatro de rua, as datas oficiais não costumam ser comemoradas; ao contrário, a chamada “memória construída pelo alto” (a oficial) é sempre passível de chiste e de gozação. A rua também não pode ser “invadida” por qualquer obra, na maior parte do Brasil, para apresentar teatro de rua, é preciso pedir autorização. As comemorações de Sete de Setembro não precisam de autorização: a data faz parte do calendário oficial das cidades...
Muitos são os paradoxos da vida social.
Em sete de setembro de 2011, por volta das 11h da manhã, a Rua XV de Novembro, em São José dos Campos, foi transformada em passarela. Pela rua, infindos cidadãos: convidados ou intimados, patriotas ou alienados, crédulos ou incrédulos, conhecedores ou não da data, sempre em coro, desfilavam pela via pública. Nas calçadas, palmas e protestos; faixas a favor da Independência e faixas contra uma série de coisas, sobretudo contra a corrupção... A via pública é o espaço de contrastes. No citado Sete de Setembro, muita gente-em-desfile, momento de espetacularização. De vendedores e de compradores; de fanáticos emocionados e passantes distraídos; de pregões e de pregadores... tudo misturado: loas à data e críticas ao poder.... tudo misturado. A rua é o lugar das misturas.
Exatamente, quase no meio dessa misturação toda, na bela Praça Afonso Pena (difícil não perceber a beleza desta praça), Os Inventivos (SP) esperam a festa oficial terminar para fazerem a sua festa! Selecionados para a 26ª edição do Festivale – Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba, os cinco integrantes do grupo, exatamente, às 11h30 dão início ao espetáculo. O miolo da praça vazia, logo lota, sobretudo de crianças.
Em cena, 3 trabalhadores, no começo da hora do almoço, e tendo como maestro o excelente Rômulo Albuquerque (diretor musical do espetáculo) apresentam o prólogo do espetáculo, fazendo música com instrumentos inusitados: “hermetismos paschoais”, como afirmou Caetano Veloso em inspirado momento de criação. Logo chega a marmiteira (vendedora de quentinhas). Então, por que não contar histórias na hora do almoço, indaga um dos trabalhadores.
Canteiro é o nome dado pelo grupo paulistano à primeira parte da trilogia que toma como mote a magistral obra de João Ubaldo Ribeiro Viva o povo brasileiro; a obra de João Ubaldo apresenta mais de 300 anos de história, cujas ações acontecem em diversos locais da Bahia. Dirigido democrática e criativamente por Edgar Castro, o grupo apresenta em Canteiro o ponto de vista do povo, no caso específico, dos trabalhadores migrantes, sendo a que a indagação que motiva esses trabalhadores-personagens é: Quem escolhe o que come?
À indagação, um dos trabalhadores afirma que o caboco Capiroba sabia o que comer, por conta de sua condição de aborígene, ele comia até gente... Inicia-se, assim a narrativa do espetáculo. Múltiplas são as personagens trazidas do livro para a cena de rua: barão e mulher, orixás, pescadores, estrangeiros, lideres revolucionários, aborígenes... As personagens de João Ubaldo ganham a cena de rua e, por conta de sua transposição para o popular, muitas são as ambiguidades em torno do comer. Talvez, e aqui vai uma sugestão ao grupo, quando o espetáculo tem tantas crianças como público – e por maior que se imagine serem os danos e exageros, nesse particular, da indústria cultural – é imperioso, para viabilizar a troca de experiência, trabalhar mais com as atitudes do que propriamente com os óbvios.
Espetáculo absolutamente interativo no qual os atores sabem jogar com os espectadores. Muita participação dos mais de 200 espectadores que, na maior parte do tempo, assistiram ao espetáculo. Um coro de crianças destacou-se do conjunto, tendo como corifeu uma dessas crianças, que contestava todas as injustiças que tentavam ser impostas pelas personagens perversas da obra. O corifeu insistia, contrariando alguma imposição de autoridade que comeria quantas vezes quisesse e que não era escravo. No concernente à participação e interatividade alcançada pela obra, o maior de todos os destaques são os atores. Aysha Nascimento, Flávio Rodrigues (magistral na apresentação aqui analisada), Marcos di Ferreira, Mayumi, além de atores-criadores, regem, arranjam e animam com amplo domínio de seu fazer e de sua tarefa de artistas.
Atendo-se à questão das injustiças e da fome permanente, há momentos antológicos na obra. Um deles concerne aos processos de embranquecimento decorrente da miscigenação não consentida ocorrida no Brasil. Portugueses e outros europeus violentavam as mulheres negras, simplesmente isso! Hoje, decorrente de ideologia perversa, é incontável o número de mulheres que alisam o cabelo para, talvez, serem aceitas... Depois de uma das personagens tentar alisar o cabelo de sua enteada, sem tanto sucesso, conclui o ator: “Quem não aceita o cabelo que tem, também come apenas o que lhe é imposto.”
O espaço de representação é quase uma arena, nela, entretanto, “dominando a cena”, e em sentido vertical, uma grande traquitana (nome dado a um adereço de múltiplas funções, serve como púlpito, patíbulo, prisão, espaço de representação e de sevícia, camarote, barco, palco, tribuna.
Como o espetáculo apresentado no dia anterior – Ser Tão Ser: Narrativas da Outra Margem –, Canteiro também termina com uma indagação coletiva: “Como se faz justiça hoje?!” Assim, aos Ioiôs da atualidade se recomenda: Acordar às 4h30 da manhã e tomar o ônibus lotado; colocar o único filho em escola pública para estudar; se sustentar com um salário mínimo...
Estou convencido de que algumas pessoas que assistiram ao espetáculo na Praça Afonso Pena, sobretudo ao pequeno-grande corifeu, cujo nome não me foi possível saber, viverá todos os Sete de Setembro com uma outra consciência a ser conquistada.

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