quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O Chapéu e a arte de rua

O teatro e os artistas que fazem arte de rua vêm conseguindo com significativo êxito, nos últimos anos, seu reconhecimento em projetos governamentais e junto a empresas que investem em cultura. Este reconhecimento faz com que instituições que antes davam atenção apenas ao teatro de palco, recebam também os grupos e trabalhos de teatro de rua.

O teatro de rua, entretanto, tem uma importante tradição: a passada do chapéu. Esta prática tradicional, milenar, tem sido proibida, coibida ou evitada em alguns desses novos locais de apresentação, talvez por não ser compreendida como uma tradição artística com raízes históricas, mas apenas como um pedido de dinheiro ao público. O artista de rua não depende apenas dos projetos e das instituições que os contratam, mas sim da população, que é o berço de seu trabalho. A relação que esse artista estabelece com o público que o assiste é de uma ordem diversa daquela instituída nos palcos fechados, onde o pagamento do espetáculo se dá antes mesmo da apresentação.

O próprio “pagamento” na rua adquire um valor simbólico, como um exercício de troca, de afeto entre iguais em um determinado instante. Afeto que se materializa não somente em dinheiro, mas em balas, sacos de pipoca, apertos de mão, panfletos e pequenas histórias, partes daquele instante, que concretizam a presença do espectador enquanto parte viva e ativa do espetáculo e não apenas enquanto simples “pagante”.

Além disso, o chapéu também tem importância dentro da “dramaturgia” de muitos espetáculos. Muitas são as variações criadas para a passada do chapéu: músicas, cenas, interrupções do roteiro ou partes propositais dentro do próprio espetáculo. A criatividade e a arte de ganhar o seu sustento são características inerentes ao artista que trabalha na rua.

Nesse sentido, a coibição dessa prática é muito negativa na educação e formação do público para valorização desta arte, quando feita na rua, e também na quebra e desrespeito a esta tradição. Não é apenas uma questão de manter uma tradição por seu charme medieval, mas sim de manter uma relação com o público que é fundamental para o reconhecimento desses artistas de rua.

Esse ato tem caráter de defesa de um posicionamento que a arte de rua deve viver da rua e seus simbolismos, construídos historicamente.

Tomar essa posição significa dizer que o artista de rua não pretende migrar para as salas e ambientes tradicionais das artes cênicas, mas sim, manter seus pilares em sua origem que é chegar sempre em locais onde a arte não chega.

Esta carta tem o objetivo de orientar artistas e interessados em compreender que “passar o chapéu” é um ato de preservação do teatro e da arte de rua que tem como prioridade o espaço público de praças, ruas e demais logradouros por princípios estéticos, de conteúdo artístico, político e baseados nos direitos humanos universais sobre o acesso aos bens culturais.

Solicitamos o reconhecimento da legitimidade, do princípio ético e pedagógico contido no ato de passar o chapéu independente da política e de normas institucionais que restrinjam essa prática inerente ao artista de rua.



Movimento de Teatro de Rua de São Paulo

Núcleo Regional de Pesquisadores de Teatro de Rua

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